terça-feira, 25 de março de 2008

Um novo olhar sobre si mesmo - Moska


Texto publicado no caderno "Informática ETC" - O Globo, no dia 06/set/2004.


Nova York. Manhã do dia 6 de setembro de 2001. Ele acabara de comprar sua câmera digital 3.2 megapixels com tela móvel. Era o seu último dia em Manhathan e ele já estava atrasado, mas ao chegar para fazer as malas no quarto do hotel quis testar seu novo equipamento. A máquina tinha um botão de automático perfeito para “leigos” como ele. Com esse botão a máquina corrigia a luz, acertava o diafragma e dava a abertura necessária para que ele rapidamente acreditasse ser o melhor dos fotógrafos: só precisava escolher, apontar e apertar.
Os primeiros testes foram a vista da rua pela janela, os objetos dispostos no quarto e, sem mais pra onde ir, o banheiro. A privada, o jogo de toalhas, o tapete, a torneira espelhada. Curioso…dava pra ver o seu próprio rosto desfocado dentro daquela torneira espelhada. Um outro botão chamado “Macro” focou toda a imagem em menos de um segundo e… Click! Rápido para o aeroporto!!
Rio de Janeiro. Noite de 11 de setembro de 2001. Em frente ao computador, depois de passar todo o dia tentando ligar para amigos que moravam em NY, ele checa os registros fotográficos de um quarto de hotel que talvez não existisse mais. Dois monumentos que representavam o Olimpo Tecnológico haviam sido derrubados pelos novos bárbaros. A foto do seu rosto refletido na torneira espelhada parecia mais um grito de horror agora. O metal distorcia seus traços de tal maneira que ele não se reconhecia. Durante toda a madrugada aquela imagem bizarra que mais parecia uma tela do Francis Bacon ou do Egon Schielle não lhe saiu da cabeça.
Os dias seguiram tensos. Aquele era, sem dúvida, o início do fim do mundo. O fim de um mundo, pelo menos. Era a Guerra. A brutalidade do fato. A possibilidade do fim. A loucura humana. Ele, músico, estava em turnê de lançamento do seu novo disco. A cada dia de show uma cidade diferente (notícias da guerra). Um hotel diferente (notícias da guerra). Um banheiro diferente (notícias da guerra). Tudo novo de novo de novo.
Como um diário de soldado em campo de batalha, os auto-retratos tornaram-se uma obsessão para ele. Em dois anos de turnê ele clicou cerca de três mil reflexos de si mesmo nos objetos espelhados dos banheiros de hotéis em mais de 80 cidades do Brasil. Torneiras, maçanetas, aparadores de toalha, porta-papel higiênico, descargas... qualquer objeto de aço inox que refletisse seu rosto virava uma tela branca para pintar as erupções de sua alma solitária. Virtualidade real. Transcendência “ao vivo”.
À procura de seus outros eus nesses espelhos, ele aprendeu a se observar através do seu próprio olhar, de um ângulo que até então não era o seu, e acabou por encontrar em si mesmo um “eu tecnológico”. Um eu com fome de tecnologia. Como se a desconstrução das torres fosse a imagem necessária para detonar o processo de construção de um novo homem. O homem que se vê através da absorção da tecnologia. Refletindo sobre a própria imagem distorcida.

Ele sou eu.

O pós-humano.

“As montanhas refletem sons, produzindo eco. O mar reflete movimento, produzindo ondas. O espelho reflete luz, produzindo imagem. O homem reflete pensamento, produzindo arte.”

MOSKA.

Um comentário:

Paulo Felipe disse...

um dia eu aprendo a tirar foto no celular